domingo, 18 de maio de 2008

E NADA VEM



UMA MULHER AO LONGE
PARECE CEGA DE SEDE
PARECE SECA DE TANTA PRECE
QUE NÃO VEM.
SE PODE VER O CHORO DA MULHER:
LHE UMIDECE A FACE E LHE FAZ PARAR,
CAIR SENTADA
A ESPERA DO TEMPO COM OS PÉS
DESCALÇOS
E O TEMPO NÃO VEM.
ESSA MULHER QUE TEM A FORÇA
QUE A RAIVA ALIMENTA
ESSA SEDE QUE SÓ AUMENTA
E LHE FAZ CAIR NO CHÃO.
QUASE NÃO TEM MULHER NESSA
MULHER
AGORA É QUASE SÓ A RAIVA,
MAS A SEDE É TAMANHA QUE
NEM MAIS A RAIVA VEM.

vigília


O que se pode construir,
Há de se recriar a fala e não olhar pra dor que nasce,
Fazer morrer o que há de gente na gente, não saber...
Um rumo que se constrói por entre as gretas da vontade,
Escravizar o homem ao desejo de nem saber o que há de
Perfume em todas as flores do mundo... Adulterar a própria criação
Pra fazer sorrir o que existe de humano no silêncio. Calar.
Negar a fome até que se dissipe. O choro até que finde.
Fundir até o que não é bruto na dureza das horas de sono.

quarta-feira, 5 de março de 2008

EXPOSIÇÃO REVELA TRADIÇÃO DO HINAMATSURI

O espaço de encanto e graça destinado à figura feminina oriental muitas vezes é o principal fator que as acorrenta à condição de submissão e ao silêncio, transformando-as em figuras pouco falantes e obedientes atrás da qual se esconde a força silenciosa que constitui o eixo moral da família, a força que une, ampara, conforta e consola. É quando as jovens começam a ser preparadas para ocupar seu tímido espaço na sociedade japonesa, nascendo assim o Hinamatsuri.
O Dia das Meninas, como é tradicionalmente conhecido, é a hora que a família oriental reúne-se em torno das filhas caçulas para celebrar e desejar votos de bom casamento, felicidade, saúde e beleza. Por um dia, a menina torna-se o centro das atenções, reunindo-se com suas amigas em torno do Hinadan, uma plataforma em degraus coberta com tecido vermelho, onde estão arrumados miniaturas de bonecas que simbolizam o imperador, a imperatriz, corte e artefatos.
Todos os objetos Todos os objetos que ficam expostos no Hinadan são heranças de família ou colecionados desde o nascimento da menina. Essas peças só ficam expostas na cerimônia, em seguida são guardadas dentro de caixas. No Hinamatsuri também tem o ritual de iguarias, onde são servidas guloseimas brancas e vermelhas feitas à base de arroz, feijão, aveia colorida e pequenos bolos com o formato de diamante conhecidos como Hishi-mochi. Para beber é servido o shiro sake, uma bebida leve e doce, preparada com arroz fermentado.
O Dia da Menina pode ser celebrado tanto dentro de casa como à beira d'água. Essa celebração é toda preparada para afastar os espíritos malignos que podem cercar a pequena. Se o local escolhido for a residência, determina-se entãoum local privilegiado para levantar o Hinadan. Também é preparada para esse dia uma decoração simbólica com pessegueiros em flor, que simbolizam a felicidade no matrimônio, e outras flores que representam o lado feminino.
Para a matriarca da família Shimizu, Sachiko, que vive no Brasil há mais de 50 anos, é muito importante que as famílias japonesas mantenham sua cultura: "Não devemos esquecer as nossas origens e nem os nossos costumes", explica. Sachiko até hoje comemora todos os eventos tradicionais de sua terra natal para que as novas gerações não esqueçam de onde vieram: "Faço questão de, pelo menos, organizar uma homenagem simbólica aos eventos do calendário japonês", conta.
O Dia das Meninas não é diferente. Sachiko é avó de três jovens sanseis, entre elas Brenda Marye, de 11 anos, que já está com a plataforma tradicional montada na sala de casa, para esperar o Hinamatsuri chegar. "Quero que a minha neta nunca se esqueça da cultura japonesa e tenha muita saúde e felicidade neste Hinamatsuri", completa.
A Prefeitura Municipal, através da Fumbel, em parceria com o Consulado Japonês, abre no dia 3 de março a programação que homenageia o centenário da imigração Japonesa ao Brasil no Museu de Artes do Município (MABE), com a exposição que leva o nome da festa dedicada às jovens nipônicas.
Segundo Ida Hamoy, responsável pelo departamento de Museografia do MABE, esse evento estimula a importância de se conhecer culturas diversas: "A partir do momento conhecemos a cultura do outro passamos a ter mais respeito pelas diferenças. Aumenta-se assim a tolerância e se extermina de vez a etnofobia", finaliza.
A exposição ficará aberta à visitação entre os dias 4 e 9 de março, no Museu de Arte de Belém (Palácio Antônio Lemos), de terça à sexta-feira, das 10h às 18h, e aos sábados e domingos, das 9h às 13h.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Clara Evidência


Já não conforto meus olhos nos teus,
num segredo que me dilacera
a alma
o mar se manteve ali
Líquido e intenso.
Foi quando vieste.
A pele pura e branca encantou
Meu ser, não menos
desesperadamente,
Apaixonado.
A boca vermelha que,
em toda sua vermelhidão,
acalmava minhas mãos,
que já não sabia onde colocar,
e acabei por não colocar
em lugar nenhum,
e os olhos, ah! Os Olhos...
Me perdi completamente
ao encanto do par de gêmeos
que me fazia
Renascer num suspiro calmo e
errante.
Há de se levar em consideração os cabelos:
Negros como que para contrapor a pele e
Lisos numa combinação perfeita
do virgem olhar.
a deusa que me tirou o sono
e os sonhos ocupou com a
beleza
mora em ti
E no meu peito reside a dor do
incerto.
Não me mata os sonhos, suplica
meu coração,
Nem me engana a alma.
Apenas te compartilho o meu
delírio:
Tua beleza no meu desejo
Tua doçura na minha loucura
Tua sabedoria na minha poesia.
A dor é de descobrir que
te amo como minha própria vida,
e já não sei se vou viver ou morrer
quando descobrires:
Minha dor que não se dissipa.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Euzébio, funcionário público.





Euzébio sonhava em ser astronauta, mas quando descobriu que a lua não era de queijo, quis ser jogador de futebol. Aos 12, Euzébio furou o pé em um prego no meio da pelada e ele próprio fez seu curativo, resolveu que ia ser médico. Um dia quis ajudar Joaquim que tinha caído da bicicleta, e deslocou o braço esquerdo do amigo tentando ajeitar o direito. Aos 15, vendeu as figurinhas do álbum da copa e comprou a última playboy do mês de setembro, resolveu ser economista, aos 17 errou o troco ao comprar o pão para sua mãe e levou uma esculhambação que o fez largar o futuro glorioso e pensar em ser dono de padaria, aos vinte quis ser cantor, aos vinte e cinco quis advogar, aos trinta professor, com trinta e oito só quis nadar, com quarenta descobriu a matemática, quarenta e dois a agronomia, com cinqüenta a engenharia e cinqüenta e sete não sabia. Hoje aos sessenta, Euzébio sonha em se decidir depois que se aposentar...

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Nos olhos de quem não vê.




Em terra de cego quem tem um olho vê menos.
Pensar em cegueira pode parecer um pesadelo. Uma vida no escuro levaria alguns à loucura, porém ao refletir mais profundamente, descobre-se que a falta de visão na verdade exige outra forma de encarar o real e, pode desenvolver nossa subjetividade e nos levar aos caminhos mais diversos de auto-conhecimento e imaginação.
O músico e letrista Hermeto Pascoal, comenta sobre a sua forma de enxergar o mundo apesar de sua visão parcial: “Nunca senti falta da visão, porque não sei como os outros vêem, isso enriquece minha personalidade”.
A falta de um sentido tão importante, em um mundo cada vez mais visual, exige muita criatividade e coragem para enfrentar nossos próprios monstros e tabus, mas não passa de uma questão de ponto de vista.
Ponto de vista
“Se Romeu tivesse olhos de falcão não se apaixonaria por Julieta, pois os olhos dele veriam uma pele nada agradável”. Quando o escritor José Saramago afirma tal imagem, ele nos convida a uma nova forma de ver o valor que damos ao sentido visual, pois o excesso é perigoso e ver demais pode significar não ver nada.
O olhar mal treinado também pode nos enganar, por isso precisamos analisar todos os aspectos de um acontecimento antes de imprimir qualquer juízo sobre ele.
Como o professor de literatura Paulo Cezar Lopez esclarece: “Não existe realidade, apenas um olhar condicionado, cada experiência de olhar é um limite, a realidade está mediada por nossas experiências”. Paulo Cezar perdeu a maior parte de sua visão na adolescência e revela a sua mudança pessoal como conseqüência: “Depois que se fica cego, nossa subjetividade se abre em todos os aspectos, inclusive nas relações. O incômodo nos faz pensar”.
Pensamento
“Se o olho é a janela da Alma, então é necessário olhá-la com um olho diferente e, esse outro olho também é uma janela da Alma. A janela não olha, quem olha é o olho através dela”. O poeta Antônio Cícero comenta que tal metáfora não nos leva a uma realidade e dificulta o conhecimento sobre a visão, “porque você vai ao infinito e nunca chega na alma”, diz Cícero.
A partir deste pensamento sobre o olhar pode-se tirar a importância exclusiva dos olhos no momento do “enxergar”, afinal não vemos apenas com eles. É o que o cineasta americano Wim Wenders explica: “Vemos com os ouvidos, o cérebro, com o estômago e creio que em parte com os olhos, mas não exclusivamente”. Porém há quem dê muita importância à esse sentido, é o caso da atriz Marieta Severo que afirma que não ver o colega em cena, a desconcentra mais do que não escutá-lo. “ Minha cena se alimenta da troca com o outro feita através do olho no olho”, ressalta Marieta.
Ver ou não ver “that´s the question”?
Não enxergar, por tanto, é olhar além do que os olhos apreendem, e conseguir libertar o mais profundo sentido sobre algo ou alguém.
O neurologista e escritor americano Oliver Sacks desvenda sua “visão” sobre o assunto: “O ato de olhar não se limita ao visível, mas também ao invisível, é que chamamos de imaginação”.
A partir dessa fala de Oliver, a visão ganha um sentido ativo e importante que nega a idéia clássica de que o olho é uma janela. “Não podemos ver os olhos como janela da alma simplesmente, pois assim parece passivo e que as coisas apenas adentram. A alma e a imaginação também saem”, completa Sacks.
A importância da visão é uma marca intensa na humanidade, e se não ver nos leva além do visível, ver nos liga intimamente aos outros. É como a cineasta de animação inglesa Marjut Rimminen, que tem estrabismo profundo, comenta: “Treinei meus olhos, e hoje se olho para alguém, este alguém sabe que o estou vendo, antes as pessoas perguntavam com quem eu estava falando? Era muito desagradável, sentia falta desse contato que a visão oferece”, conclui Marjut.
Diante da “espetacularidade do horror” que o mundo apresenta e nosso conformismo com ele, com olhos saudáveis ou não, estamos todos cegos.
Terra de cego
Seguimos na ciranda do mundo, como diria o poeta “com olhos lentos e sãos”, para nos proteger de toda matéria negativa que a humanidade tem cultivado como causa e efeito de seus comportamentos, cada vez mais individualistas e egocêntricos. Mas a culpa é do que vemos?
Talvez a resposta seja positiva, mas o melhor é compreender que cada caso é um caso.
Hermeto Pascoal afirma que “A visão afasta a gente das coisas que realmente queremos ver”. Porém atribuir à visão tal destino, não seria de todo o correto.
Saramago nos esclarece ainda mais sobre esse papel da visão no caos social a que estamos nos encaminhando: “Nunca vivemos tanto na caverna de Platão como hoje, porque as imagens que nos mostram, substituem a realidade, estamos no mundo áudio-visual, olhamos sombras e cremos que são realidades”.
Estabelecer relações com o que vemos e o que sentimos, está cada vez mais distante e beira o contraditório, uma vez que o olhar pro si só não enxerga, é necessário sentimento para alcançar a real visão.
Neste mesmo sentido Oliver Sacks reforça: “Também vê-se com a mente, somos seres emocionais, nossa visão está intimamente ligada ao emocional, e depende dele para acontecer”.
Ainda sobre a desumanização do mundo através do olhar, pode-se atribuir parte culpa à necessidade de sustento e sucesso financeiro. É o capital regendo o que vemos.
“Antigamente os filmes deixavam um espaço nas entrelinhas para pensarmos sobre as cenas, hoje os filmes vem fechados, não nos dão tempo de sonhar, o sonho já vem pronto como querem que nós o recebamos”, comenta Wim Wenders sobre a falta de tempo que as mídias nos impõem.
Essa publicidade visual se torna cada vez mais excessiva e muda o sentido da visão: “Hoje nossos olhos não tentam nos dizer algo, tenta nos vender algo”, Conclui Wenders, que ainda soma ao consumismo a responsabilidade da nossa falta de atenção às coisas simples.
A falta de Auto-conhecimento e liberdade individual de se questionar sobre nossas atitudes, acaba trazendo à tona monstros que aniquilam nossas possibilidades de enxergar a verdade das coisas.
O filósofo francês Eugen Bavcar que, apesar de cego, é um fotografo famoso, revela as nuances que a visão (ou a falta dela), provocam no homem contemporâneo: “Vivemos em um mundo que perdeu a visão, a TV nos propõe imagens prontas, e não sabemos mais vê-las. Porque perdemos o olhar interior, o distanciamento. Vivemos numa espécie de cegueira generalizada”.
O fato é que, com ou sem a possibilidade da visão o mundo perdeu o interesse por ela, no sentido da contemplação ou mesmo absorção da realidade.
Os olhos, apesar de poderosos, estão se tornando uma janela passiva da alma, que consome imagens gratuitamente, e lesa os sentidos mais profundos das coisas mais simples. Mecaniza-se assim a humanidade, e as relações como um todo.
Homens enxergando o mundo sobre as óticas de outros destinando os seres do planeta à um futuro onde quem tiver um coração será rei!

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Panis et circencis



Escreverei sobre a falta de rumo em todos os sentidos, sobre o desalento e até a descrença:
Sabemos que, todos os dias, somos roubados. Que as coisas não vão bem. Sabemos juntos que o preço da carne subiu, e o nosso salário não acompanhou.
Juntos sabemos que as calotas polares estão derretendo depressa, sabemos que a culpa é de nossos desodorantes com aerossol, e ainda sim os usamos.
Sabemos que há fome por todos os lados, e que já falta Deus em nossos corações, Juntos acreditamos que não podemos mais. Que tudo está perdido. Faltam caminhos para os nossos pés.
Há miséria, há corrupção, descaramento, hipocrisia, covardia, e outros tantos “ias”, há saudade, há melindres e traumas. Tudo existe até esperança.
Então votamos, torcemos, elegemos, acreditamos e voltamos a comemorar: Comemoramos o fim das guerras, comemoramos o dólar que cai, comemoramos a morte de Hitler e Sadan, o futebol, o samba, a bunda na TV, o último capitulo da novela das oito.
É quando nos conformamos: não temos furacões, nem Tsunamis, não temos atentados homéricos, nem etnofobia. Não temos memória.
E nossos aviões continuam a cair, nossos sertões continuam com sede, mas não podemos parar.
A vida bate na janela do carro pedindo “o do pão”, não abriremos, havemos de seguir, para que não sejamos nós amanhã, com os dedos no vidro.
Seguimos cegos, surdos, mudos, loucos de revolta e borrados de medo. E desse momento em diante somos assaltados: nos levam o dinheiro, a moral, a esperança.
Então, ou escrevemos um manifesto triste para um comunicado de faculdade, pedindo ajuda para o mundo, ou ligamos a televisão e aceitamos viver em um mundo escrito por Manoel Carlos.